A gente pequena da cidade grande sonha sonhos pequenos de gente pequena, que deseja coisa pouca para suprir suas grandes fomes.
A vida pequena dessa gente pequena transcorre sem grandes acontecimentos. Até suas grandes dores parecem pequenas, seus grandes esforços alcançam pequenos resultados.
Seus grandes amores são tão comezinhos que nem parecem amores, parecem cuidados. Porque eles se dão nas pequenas coisas. Pequenos presentes, pequenos favores, opiniões irrelevantes, sobre assuntos triviais.
Vivências pequenas, de alcance reduzido. Bem e mal em modestas porções.
Na grande escola aprendem pequenas lições e de pouco em pouco, pedaço a pedaço, costuram essa colcha de retalhos do berço esplêndido que fala o hino, em que nos entranhamos todos, recortados e remendados, rejuntados uns aos outros, anônimos ladrilhos desse painel monumental da cidade grande.
AC - Sampa, 13/09/2007
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domingo, 25 de março de 2012
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Eu gosto de gente
É bom encontrar pessoas,
abraçar corpos humanos,
conviver, conversar.
Passear, intercambiar pensamentos,
estimulando a mente à renovação criativa.
É nas trocas afetivas que me reconforto e reencontro.
Tem gente que gosta de bichos,
gente que gosta de plantas.
Eu gosto de plantas e bichos,
mas gosto mesmo é de gente.
Com seu alarido, seu desengonço,
seu mau-humor e cansaço.
Gente que não se encontra,
que se desencontra e discute e se bate.
Gente que pensa e, mais do que sente, pressente.
Gente voluntariosa, que não obedece,
que pensa e discorda.
Gente cheia de vontades,
que não sabe ao certo o que quer,
mas sabe que quer e tenta encontrar,
sabendo tão bem o que faz questão de perder.
Gente que pode ser muito decente,
mas que não é inocente.
Nada melhor que o bicho-gente,
das reações impertinentes.
Imprevisível animal,
ante o qual não convém, jamais, se desarmar.
Ser da mesma natureza,
o único com o qual podemos dialogar.
Manso ou fera, o bicho-gente
é o companheiro perfeito para fazer desta terra
meu inferno indispensável
e meu paraíso possível.
AC, mil novecentos e oitenta e poucos.
abraçar corpos humanos,
conviver, conversar.
Passear, intercambiar pensamentos,
estimulando a mente à renovação criativa.
É nas trocas afetivas que me reconforto e reencontro.
Tem gente que gosta de bichos,
gente que gosta de plantas.
Eu gosto de plantas e bichos,
mas gosto mesmo é de gente.
Com seu alarido, seu desengonço,
seu mau-humor e cansaço.
Gente que não se encontra,
que se desencontra e discute e se bate.
Gente que pensa e, mais do que sente, pressente.
Gente voluntariosa, que não obedece,
que pensa e discorda.
Gente cheia de vontades,
que não sabe ao certo o que quer,
mas sabe que quer e tenta encontrar,
sabendo tão bem o que faz questão de perder.
Gente que pode ser muito decente,
mas que não é inocente.
Nada melhor que o bicho-gente,
das reações impertinentes.
Imprevisível animal,
ante o qual não convém, jamais, se desarmar.
Ser da mesma natureza,
o único com o qual podemos dialogar.
Manso ou fera, o bicho-gente
é o companheiro perfeito para fazer desta terra
meu inferno indispensável
e meu paraíso possível.
AC, mil novecentos e oitenta e poucos.
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