segunda-feira, 7 de julho de 2008

Chuva

Chuva de repente
O trem entra na gare
molhado atrás, seco na frente

Chuva lá fora
Já molhou quem chega
espera quem vai embora

Chuva cruel
Enche de goteiras
a casa de aluguel

Chuvinha leve
Traz doença grave
pra vidinha breve

Chuva inconstante
Se aqui já não pinga,
respinga mais adiante

Chuvinha à toa
Minh’alma chora a cântaros
meu coração garoa

Chuva benfazeja
Meu peito é uma torrente
meu olho só goteja

Chuva sertaneja
A planta morre seca
e a nuvem lacrimeja

Alberto Centurião
Sampa, 12/02/2005

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A história do menino que fugiu de casa e foi morar embaixo da ponte

– Diga logo Cantador
O que foi que aconteceu.
Digue logo, por favor,
Como foi que aconteceu!...
Meus amigos, quem vos fala
É o cantador de cordel.
Quando uma idéia me estala,
Vou passando pra o papel.

Eu levo a vida cantando
Pro povo da minha terra,
Histórias que vou lembrando
Dos causos que a vida encerra.

Apareceu um garoto
Pras bandas do meu nordeste.
Um cabra de tão maroto,
Mais parecia uma peste.

A mãe não tinha mais jeito,
Vivia encabulada.
Um dia pegou o tal sujeito
E sapecou umas palmadas.

O tal de anjinho sem asas
Não gostou das gentilezas.
Resolveu fugir de casa,
Levar vida na moleza.

Acordou de madrugada,
Antes do galo cantar.
Botou o pé nas estradas,
Deixando a mãe a chorar.

Veio parar na cidade
Sem ter lugar pra morar.
Passando necessidade,
Aprendeu a trabalhar.

Nesta cidade perdido
Carregando seu segredo,
Sem ter nenhum conhecido
Passou fome, frio e medo.

Sem encontrar moradia,
De uma ponte fez abrigo
Mas muita falta sentia
De um verdadeiro amigo.

A um moço desconhecido
Que um dia pediu pousada
Ele deu casa e comida,
Fez seu novo camarada.

Mas um dia descobriu,
Só por casualidade,
Que o rapaz que ele acudiu
Vinha da mesma cidade.

Ai meu Deus, quanta alegria
Daqueles cabras da peste.
Conversaram todo o dia
Das coisas lá do Nordeste.

O amigo lhe disse, então,
Da falta que ele fazia.
Da tristeza no sertão,
Do quanto a mãe padecia.

Ele então, arrependido
De fazer a mãe chorar,
Sabendo que era querido
Pra casa quis regressar.

Empreendeu logo a viagem
Que tantas vezes sonhara:
Cinco dias de estiagem
Em riba de um pau-de-arara.

Meninos, chegou o dia,
Faltou lugar no sertão
Pra caber tanta alegria,
Pra guardar tanta emoção.

A mãe abraçando o filho
E o filho com a mãe do lado.
Nos olhos tamanho brilho
E o coração abrasado.

Depois de tudo passado,
A mãe a Deus foi rezar
Por ter um cabra safado
Virado um filho exemplar.

Meus amigos, tendo em vista
Que a hora vai adiantada,
Se despede o repentista
Depois da história contada.

Alberto Centurião
São Paulo, 1981

domingo, 15 de junho de 2008

O rio e a cidade

O rio dá vida à cidade
E a cidade mata o rio.
Vejam que atrocidade,
A cidade mata o rio.

Alberto Centurião
Sampa 2000
Da peça “O último programa de Cubanacan”

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Amanhecer do Vigésimo Andar

minhalma se despedaça
inteira se despetala
nos cacos dessa vidraça

meu peito se desfalece
nas gotas desse repuxo
que cintilante amolece

meus sonhos se desvanecem
nas brumas dessas matinas
que vermelhas recrudescem

meu olho que se derrama
da vigésima sacada
mergulha no panorama

Alberto Centurião
Sampa 15/05/2008

quinta-feira, 15 de maio de 2008

morfologia da metamorfose

o mito mete medo
o medo muda a mente
a mente emite a meta
a meta mata o mito

amarga mente amorfa
amalgamando o mundo
mitômana mnemose
anima a metamorfose

Alberto Centurião
Sampa 11/05/2008

sábado, 3 de maio de 2008

desafio

tudo começa com uma folha em branco
a vida começa com uma folha em branco
a eternidade é uma folha em branco

Alberto Centurião
Sampa 02/05/2008

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Quadrinha

Tão somente uma quadrinha
Cabe neste papelucho.
Numa vida igual à minha,
Não cabe choro nem luxo.

Alberto Centurião
Sampa 18/02/2006

sábado, 26 de abril de 2008

da especificidade das leis

tarde fatídica
sangra a veia poética
na biblioteca jurídica

estranho no ninho
poeta entre rábulas
a flor e os espinhos

linguagem hermética
outros códigos regulam
a liberdade poética
Alberto Centurião
Sampa 26/04/2008

sexta-feira, 25 de abril de 2008

o repouso do guerreiro

a suavidade de um gatinho dengoso
máquina mortífera em estado de repouso

Alberto Centurião
Sampa 24/04/2008

ao cabo das tormentas

torvelinhos mentais
terremoteiam certezas
tufanizam crenças
tsunamizam poderes
borrascam consciências
e rociam jardins secretos onde se cultiva
a graça e a arte de envelhecer sorrindo
Alberto Centurião
Sampa 24/04/2008