quinta-feira, 6 de novembro de 2008

entropia

dentro de um shopping Center
todas as cidades são iguais
todos os desejos são iguais
todas as juras são iguais
é a humanidade reduzida
ao máximo divisor comum
em doze vezes no cartão
sem juros

Alberto Centurião
Sampa 30/10/2008

minha vida impressa

uma brochura
de lombada bem dura
poesia pura
do berço à sepultura

folheio sem pressa
minha vida impressa
passado não cessa
futuro é promessa

existe o instante
fugaz incessante
presente pulsante
cabeça distante

em cada amargura
prazer ou ventura
na idade madura
meu ser se depura

Alberto Centurião
Sampa 30/10/2008

terça-feira, 26 de agosto de 2008

viagem no pôr do sol

para a tripulação do vôo 1625

eu me apego às últimas luzes do dia
como um doente na uti
se agarra ao último sopro de vida

morrer deve ser igual
a seguir o sol
do outro lado do mundo
.
mas meu avião
viaja de norte a sul
e não me resta escolha

senão mergulhar na noite
para viver mais um dia

Alberto Centurião
10/08/2008 – 18h20
a bordo entre Cuiabá e Campo Grande
rumo a São Paulo

vôo noturno

- o mapa do Brasil
é pontilhado de alfinetes
ou seriam estrelas
caídas do céu?

Alberto Centurião
10/08/2008 – noite
a bordo entre Cuiabá e Campo Grande
rumo a São Paulo

domingo, 27 de julho de 2008

motivos

tudo tem um motivo
tudo tem um porquê
o dilema de estar vivo
é saber quem é você

Alberto Centurião
Sampa, 20/07/2008

sábado, 19 de julho de 2008

Dolores Duran

dizer as coisas mais simples
simplesmente
de um jeito corriqueiro
diferente
tratar com seriedade
displicente
feridas de uma alma
impenitente
detalhes de uma história
recorrente
dos lábios de um sorriso
inconseqüente
nos versos do poema
permanente

Alberto Centurião
Sampa 19/07/2008

quinta-feira, 10 de julho de 2008

gênese

primeiro foi luz e sombra
antes de ser tinta e papel
o poema
que antes de tudo
bem antes de ser palavra
foi somente uma idéia
que se apaixonou por uma emoção

Alberto Centurião
Sampa 10/07/2008

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Chuva

Chuva de repente
O trem entra na gare
molhado atrás, seco na frente

Chuva lá fora
Já molhou quem chega
espera quem vai embora

Chuva cruel
Enche de goteiras
a casa de aluguel

Chuvinha leve
Traz doença grave
pra vidinha breve

Chuva inconstante
Se aqui já não pinga,
respinga mais adiante

Chuvinha à toa
Minh’alma chora a cântaros
meu coração garoa

Chuva benfazeja
Meu peito é uma torrente
meu olho só goteja

Chuva sertaneja
A planta morre seca
e a nuvem lacrimeja

Alberto Centurião
Sampa, 12/02/2005

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A história do menino que fugiu de casa e foi morar embaixo da ponte

– Diga logo Cantador
O que foi que aconteceu.
Digue logo, por favor,
Como foi que aconteceu!...
Meus amigos, quem vos fala
É o cantador de cordel.
Quando uma idéia me estala,
Vou passando pra o papel.

Eu levo a vida cantando
Pro povo da minha terra,
Histórias que vou lembrando
Dos causos que a vida encerra.

Apareceu um garoto
Pras bandas do meu nordeste.
Um cabra de tão maroto,
Mais parecia uma peste.

A mãe não tinha mais jeito,
Vivia encabulada.
Um dia pegou o tal sujeito
E sapecou umas palmadas.

O tal de anjinho sem asas
Não gostou das gentilezas.
Resolveu fugir de casa,
Levar vida na moleza.

Acordou de madrugada,
Antes do galo cantar.
Botou o pé nas estradas,
Deixando a mãe a chorar.

Veio parar na cidade
Sem ter lugar pra morar.
Passando necessidade,
Aprendeu a trabalhar.

Nesta cidade perdido
Carregando seu segredo,
Sem ter nenhum conhecido
Passou fome, frio e medo.

Sem encontrar moradia,
De uma ponte fez abrigo
Mas muita falta sentia
De um verdadeiro amigo.

A um moço desconhecido
Que um dia pediu pousada
Ele deu casa e comida,
Fez seu novo camarada.

Mas um dia descobriu,
Só por casualidade,
Que o rapaz que ele acudiu
Vinha da mesma cidade.

Ai meu Deus, quanta alegria
Daqueles cabras da peste.
Conversaram todo o dia
Das coisas lá do Nordeste.

O amigo lhe disse, então,
Da falta que ele fazia.
Da tristeza no sertão,
Do quanto a mãe padecia.

Ele então, arrependido
De fazer a mãe chorar,
Sabendo que era querido
Pra casa quis regressar.

Empreendeu logo a viagem
Que tantas vezes sonhara:
Cinco dias de estiagem
Em riba de um pau-de-arara.

Meninos, chegou o dia,
Faltou lugar no sertão
Pra caber tanta alegria,
Pra guardar tanta emoção.

A mãe abraçando o filho
E o filho com a mãe do lado.
Nos olhos tamanho brilho
E o coração abrasado.

Depois de tudo passado,
A mãe a Deus foi rezar
Por ter um cabra safado
Virado um filho exemplar.

Meus amigos, tendo em vista
Que a hora vai adiantada,
Se despede o repentista
Depois da história contada.

Alberto Centurião
São Paulo, 1981

domingo, 15 de junho de 2008

O rio e a cidade

O rio dá vida à cidade
E a cidade mata o rio.
Vejam que atrocidade,
A cidade mata o rio.

Alberto Centurião
Sampa 2000
Da peça “O último programa de Cubanacan”