sábado, 24 de outubro de 2009

haikai

safra colhida
terra depenada
aves de partida
Alberto Centurião
Na estrada, outubro 2009

haikai

ônibus errado
destino incerto
caminho trocado
Alberto Centurião
Na estrada, outubro/2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

haikai

sorte ou azar

pra quem não tem princípios

o fim vem a calhar

Alberto Centurião

Sampa 19/10/2009

haikai

última fronteira

fina-se o tempo escoado

penas na peneira

Alberto Centurião

19/10/2009

sábado, 15 de agosto de 2009

Duas luzes

Ele era forte, brilhante, superprotetor.
Ela era frágil, graciosa, doce flor.
Ele adoeceu, ficou frágil, definhou.
Ela cuidou, protegeu, paparicou.
Enquanto ele vulnerável se tornava
Ela forte, serena, o sustentava.
Enquanto uma luz potente se apagava
Outra luz mais radiosa se tornava.
Cada uma adquirindo seu valor:
Fragilidade, força e o poder do amor.
Alberto Centurião
Sampa, agosto/2009.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

quadrinha efêmera

o tempo leva o que lhe apetece
a memória grava e depois esquece
de tudo aquilo que me acontece
o que passa é o que permanece

Alberto Centurião
Sampa, agosto/2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

reflexo

velho no espelho
eu olho aquele olho
que me olha

Alberto Centurião
Sampa 20/07/2009

segunda-feira, 27 de abril de 2009

a devassa

devassa minha alma devassa
a bisbilhotice repentina
das meninas dos olhos da menina

Alberto Centurião
Sampa 26/04/2009

sábado, 14 de fevereiro de 2009

uma coisa qualquer

uma unha comprida
uma cutícula partida
uma meia furada
um cabo fora da tomada
um plenilúnio em plena luz do dia
não importa o que seja tudo pode ser poesia
porque a senha secreta
está no olho do poeta
que extrai do objeto
o seu apelo secreto
produzindo a imagem
que traduz em linguagem
o verbo impronunciável
que diz a verdade inconfessável
com tamanha leveza
que quase não se percebe o horror debaixo da beleza

Alberto Centurião
Sampa 14/02/2009

sábado, 31 de janeiro de 2009

Velhice

de repente
quando menos se espera
chega o dia longamente esperado
mais temido que desejado
em que te tornas o mais velho do teu clã
de tua estirpe o mais remoto ascendente
pelo simples motivo que todos os outros
que te antecederam na vida
também antes de ti se retiraram
pelo conta gotas da morte
e tens que te habituar a um novo papel
doravante serás o ancião
a presidir o conselho dos anciãos
o avô o pai o tio o velho
o conselheiro o caduco
o mais mimado imprestável
aquele que todos querem ou repelem
até quando por vacância
cumpra-se a linhagem sucessória
porque enfim te tornaste
a mais recente entre as ausências
penduradas na memória

Alberto Centurião
Sampa 22/01/2009