segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Dose


Necessária se faz a beleza
nesta vida pacata e mofina,
pois sem ela só resta a certeza
de que um dia esse tédio termina.

É preciso escrever poesia.
De uma dose diária careço,
pois é isso que tira meu dia
da rotina sem fim nem começo.

A poesia é a pílula diária
que desopila este espírito cansado
e me dá forças para, mesmo em agonia,

ter a virtude poderosa, extraordinária,
de achar na arte deste artista fracassado
libertação do ramerrão do dia a dia.

AC – 19/11/12

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

homo hominis lupus


somos sardinhas do mesmo cardume
somos gatos da mesma ninhada
então por que diabos piranhas humanas
fazemos do mundo um saco de gatos
se somos caldo da mesma vasilha
se somos cachorros da mesma matilha

AC - Sampa, 06/11/12

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Escassez e Abundância


Tem pouco índio pra muito cacique
Tem muito czar pra pouco cossaco
Tem muito guru pra pouca guria
Tem pouca gueixa pra muito xógum
Tem muito pastor pra pouco rebanho
Tem muito mapa pra pouco caminho
Tem muito suor pra pouco prazer
Tem muito dono pra pouca verdade
Tem muita lei pra pouca justiça
Tem pouco pão pra muita barriga
Tem muito guarda pra pouco guardado
Tem muito vício pra pouca virtude
Tem pouco craque pra muito cartola
Tem pouca comida pra muita panela
Tem pouco angu pra muito caroço
Tem pouco novo pra muito novilho
Tem pouco amor pra muita suruba
Tem pouco amigo pra muito cachorro
Tem pouca água pra muita marola
Tem pouco acerto pra muita lambança
Tem pouco muito pra muito pouco
Tem muita palha pra pouca fornalha
Tem pouca cauda pra muito caudilho
Tem muito morto pra pouca mortalha
Tem pouca merda pra tanta lombriga
Tem pouco respeito pra muito canalha

AC - Sampa 03/02/2008

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Delírio politicamente correto


Um dia vamos passar a limpo a nossa história.
Deixar para trás tudo que não foi bom, limpo, belo, moderno, perfeito.
Um dia o mundo ainda vai ser do jeito que a gente acha que deve.
Nesse dia todo mundo vai andar na linha
porque nesse mundo perfeito
quem não andar direito
não vai ter esse direito.
Um dia a gente ainda vai botar um freio neste mundo.
Todos no mesmo compasso
Marchando no mesmo passo
Pensando do mesmo jeito
Conforme a mesma cartilha
Rezando pelo mesmo catecismo
Sempre a mesma ladainha.
A desigualdade será revogada por decreto
e segundo a letra nova da lei
todo preto, pardo, bugre ou cafuzo
todo molambo de rua
todo farrapo de gente
num rompante, por decreto
será  branco, belo, rico e feliz.
E quem pensar o contrário
criminoso refratário
não terá mais o direito
de expressar seu preconceito.
Um dia a gente vai reescrever todos os livros
recontar todos os contos
e nos clássicos reeditados
os desvios de raça, credo, ideias e costumes corrompidos
serão amputados.
Porque num mundo perfeito
os gênios de outros tempos imperfeitos
devem morrer outra vez
renascendo mais corretos
em edições revisadas
na norma culta tramadas
versando somente o belo, o bom,
o límpido e edificante substrato de um mundo idealizado
de uma vida perfeita
onde seres imperfeitos
tenham conduta correta.
Um dia faremos um mundo
em que as palavras cruas
feias, sujas, chulas e malvadas
não morem no dicionário.
Um dia teremos artistas
todos perfeitos autistas
desfiando platitudes
num rosário de virtudes
desenhando a alma humana
sem vícios, pura virtude
numa sociedade ordeira
generosa, hospitaleira.
E ai de quem, descontente,
queira dizer o contrário!
Porque nos tempos de hoje
inda há muito salafrário
escrevendo despautérios
dedo em riste na ferida
dizendo que o fel da vida
é o alimento diário.
Talentos desperdiçados
pervertidos e perversos
insistem em ver no mundo
os malefícios
por baixo dos artifícios.
No nosso mundo perfeito
essas vozes dissonantes
não poderão existir.
Sejam todas afogadas,
pra sempre silenciadas
para que reine a bondade
por todas as latitudes
no terreal paraíso
de nossas sãs intenções.
Pode ser que o mundo seja
ainda escroto e sacana
ainda vil e cretino
velho berço de opressão
passagem de servidão
e o inimigo do homem
seja ainda o próprio homem.
Que seja, porém que os pobres
respeitem a autoridade
e salve-se a propriedade
que alguns lograram ganhar
Que seja imperfeito o mundo
pois é de fato imperfeito
mas a arte, o noticiário,
a escola e o dicionário
sejam todos concertados
de tal maneira orquestrados
que a nossa sociedade
tão imperfeita de fato
por muito fotorretoque
fique bem no seu retrato
a ponto de dar inveja
às gerações porvindouras.

Esse é o sonho secreto
o delírio autoritário
de quem quer forjar um mundo
politicamente correto.

AC – Sampa, 01/11/2012.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

estilhaços


o sol nos cacos da garrafa estilhaçada
gemas falsas esmeraldas

AC - Sampa, 18/10/12
Foto de Maria Estêvão Pereira

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

intransferível


não leve a mal
o inferno
é muito pessoal

fuga impossível
sair do próprio inferno
intransferível

(AC 2012)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Mastro da Paixão

Nosso amor equilibrista
No arame da razão.
Nosso sonho trapezista
No trapézio da ilusão.

Nosso leito, nosso circo,
Picadeiro da emoção.
Nosso amor contorcionista,
Nós nos braços da paixão.

Nosso amor feito palhaço
Deita e rola pelo chão.
Acrobata neste abraço
Pede mais uma função.

Bailarina ou trapezista,
Domador do coração.
Nossa mágica bonita,
Lona e mastro da paixão.

Desfrutar do nosso amor numa gargalhada
Desse jeito meio exibicionista 
Nós no picadeiro, nós na arquibancada
Sendo ao mesmo tempo público e artista

Nesse nosso número correndo o risco
Lona e mastro, nossa tenda armada
Sendo ao mesmo tempo público e artista
Nus no picadeiro, nus na arquibancada

Letra: AC / Música: Luiz Antônio Karam
Feita para um show que não saiu, esta música nunca foi apresentada... Coisas do século passado...

sábado, 22 de setembro de 2012

Quimera estúpida


Um vento lúgubre agita, viscoso,
o ar fétido e gelado
da metrópole agitada.

A mente fatigada
perambula em estado comatoso
entre corpos agitados.

Uma esperança se debate agonizante
mas se agarra, obstinada,
a uma estúpida quimera.

AC - São Paulo, 18/08/2001

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

quase


está faltando café nesse café com leite
está faltando poema nesse poema conceito
está faltando pão nesse pão com geleia
está faltando amor nesse amor perfeito

AC Sampa, 21/12/2011

sábado, 15 de setembro de 2012

História de outro tempo

Longe de tudo e de todos,
Numa casinha vazia,
Cheia de planos e sonhos
Vivia uma linda guria.

O que ela mais desejava
– Queria mas não conseguia –
Era mandar tudo às favas,
Mas dali não sairia.

Porque o lugar dessa casa
Assim ermo e desolado,
Era o palco adonde estava
Seu destino escrevinhado.

Aquela linda criança
Já nem tão criança assim
Um dia cortou a trança,
Sorriu e olhou pra mim.

Caipira tão acanhado
Não sabia o que fazer,
Tive um medo disgramado
Do seu olhar me prender.

Pois era assim que seria,
A partir desse momento:
O olhar dessa guria
Me prendeu o pensamento.

Eu fiquei dela cativo,
Sem graça e muito sem jeito.
Chorava sem ter motivo,
Tinha um aperto no peito.

Mas os dias se passando
Mostraram que do outro lado
A guria me olhando
Tinha um jeito encabulado.

Pra encurtar nossa história,
Depois de dois ou três anos
Eu pude cantar vitória:
Lá na vila nós casamos.

Tivemo um cacho de filho
E pouca coisa guardada,
Só uma roça de milho
Pra criar a filharada.

Mas foi uma vida boa,
Com nosso jardim de flor.
Ai, como o tempo se avoa
Nos braços do meu amor.

Mas nosso amor não se acaba.
Hoje aqui noutra morada,
A cabocla dedicada
Inda é minha namorada.

AC – Escrita inspirada, sem identificação.
Sampa, Agosto/2007.