quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Diáfanos Concretos
Partiram na mesma barca
Décio Pignatari
poeta concreto
e Oscar Niemeyer
arquiteto do concreto.
Concretamente,
o que estarão arquitetando?
A poesia das formas e a concretude do verso?
O verso do concreto e as formas da poesia?
O verso do verso concreto?
Casas de admirar?
Poesia de morar, de mirar?
Coisas lindas
de morrer.
(AC - 06/12/2012)
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Poesia concreta
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
surpreendentemente
minha mente intermitente
ora lúcida ora dormente
mais do que sabe pressente
AC - Sampa, 03/12/12
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
A Ação Sem Agitação
Não seja burro, Inteligente,
seus neurônios o neurotizarão.
Não exiba coroas à cobiça,
sua cabeça rolará.
Quem governa obedecendo,
educa sem paixão,
mais sente do que sabe
e seus filhos têm coração.
Aquele que provê a mesa
e dispensa a certeza
terá na despensa
os lírios do campo.
Uma nação Tao
deixa vendido o vendilhão
e não dá ao medíocre
miséria por diversão.
Governa o sábio por não mandar.
Sem agitar ele faz tudo se ordenar:
Tao é a paz.
Livre-adaptação/tradução de
Alberto Centurião de Carvalho, Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
A Dose
Necessária
se faz a beleza
nesta vida
pacata e mofina,
pois sem ela
só resta a certeza
de que um
dia esse tédio termina.
É preciso
escrever poesia.
De uma dose
diária careço,
pois é isso
que tira meu dia
da rotina
sem fim nem começo.
A poesia é a
pílula diária
que desopila
este espírito cansado
e me dá
forças para, mesmo em agonia,
ter a
virtude poderosa, extraordinária,
de achar na
arte deste artista fracassado
libertação
do ramerrão do dia a dia.
AC – 19/11/12
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
homo hominis lupus
somos sardinhas do mesmo cardume
somos gatos da mesma ninhada
então por que diabos piranhas humanas
fazemos do mundo um saco de gatos
se somos caldo da mesma vasilha
se somos cachorros da mesma matilha
AC - Sampa, 06/11/12
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Escassez e Abundância
Tem pouco índio pra muito cacique
Tem muito czar pra pouco cossaco
Tem muito guru pra pouca guria
Tem pouca gueixa pra muito xógum
Tem muito pastor pra pouco rebanho
Tem muito mapa pra pouco caminho
Tem muito suor pra pouco prazer
Tem muito dono pra pouca verdade
Tem muita lei pra pouca justiça
Tem pouco pão pra muita barriga
Tem muito guarda pra pouco guardado
Tem muito vício pra pouca virtude
Tem pouco craque pra muito cartola
Tem pouca comida pra muita panela
Tem pouco angu pra muito caroço
Tem pouco novo pra muito novilho
Tem pouco amor pra muita suruba
Tem pouco amigo pra muito cachorro
Tem pouca água pra muita marola
Tem pouco acerto pra muita lambança
Tem pouco muito pra muito pouco
Tem muita palha pra pouca fornalha
Tem pouca cauda pra muito caudilho
Tem muito morto pra pouca mortalha
Tem pouca merda pra tanta lombriga
Tem pouco respeito pra muito canalha
AC - Sampa 03/02/2008
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Delírio politicamente correto
Um dia vamos passar
a limpo a nossa história.
Deixar para trás
tudo que não foi bom, limpo, belo, moderno, perfeito.
Um dia o mundo
ainda vai ser do jeito que a gente acha que deve.
Nesse dia todo
mundo vai andar na linha
porque nesse mundo
perfeito
quem não andar
direito
não vai ter esse
direito.
Um dia a gente
ainda vai botar um freio neste mundo.
Todos no mesmo
compasso
Marchando no mesmo
passo
Pensando do mesmo
jeito
Conforme a mesma
cartilha
Rezando pelo mesmo
catecismo
Sempre a mesma
ladainha.
A desigualdade será
revogada por decreto
e segundo a letra nova
da lei
todo preto, pardo,
bugre ou cafuzo
todo molambo de rua
todo farrapo de
gente
num rompante, por
decreto
será branco, belo, rico e feliz.
E quem pensar o
contrário
criminoso
refratário
não terá mais o
direito
de expressar seu
preconceito.
Um dia a gente vai
reescrever todos os livros
recontar todos os
contos
e nos clássicos
reeditados
os desvios de raça,
credo, ideias e costumes corrompidos
serão amputados.
Porque num mundo
perfeito
os gênios de outros
tempos imperfeitos
devem morrer outra
vez
renascendo mais
corretos
em edições
revisadas
na norma culta
tramadas
versando somente o belo,
o bom,
o límpido e
edificante substrato de um mundo idealizado
de uma vida
perfeita
onde seres
imperfeitos
tenham conduta correta.
Um dia faremos um
mundo
em que as palavras
cruas
feias, sujas, chulas
e malvadas
não morem no
dicionário.
Um dia teremos
artistas
todos perfeitos
autistas
desfiando
platitudes
num rosário de
virtudes
desenhando a alma
humana
sem vícios, pura
virtude
numa sociedade
ordeira
generosa,
hospitaleira.
E ai de quem,
descontente,
queira dizer o
contrário!
Porque nos tempos
de hoje
inda há muito
salafrário
escrevendo
despautérios
dedo em riste na
ferida
dizendo que o fel
da vida
é o alimento
diário.
Talentos
desperdiçados
pervertidos e perversos
insistem em ver no
mundo
os malefícios
por baixo dos
artifícios.
No nosso mundo
perfeito
essas vozes
dissonantes
não poderão
existir.
Sejam todas
afogadas,
pra sempre silenciadas
para que reine a
bondade
por todas as latitudes
no terreal paraíso
de nossas sãs
intenções.
Pode ser que o
mundo seja
ainda escroto e
sacana
ainda vil e cretino
velho berço de
opressão
passagem de
servidão
e o inimigo do
homem
seja ainda o
próprio homem.
Que seja, porém que
os pobres
respeitem a autoridade
e salve-se a propriedade
que alguns lograram
ganhar
Que seja imperfeito
o mundo
pois é de fato
imperfeito
mas a arte, o
noticiário,
a escola e o
dicionário
sejam todos concertados
de tal maneira
orquestrados
que a nossa
sociedade
tão imperfeita de
fato
por muito
fotorretoque
fique bem no seu
retrato
a ponto de dar
inveja
às gerações
porvindouras.
Esse é o sonho
secreto
o delírio
autoritário
de quem quer forjar
um mundo
politicamente
correto.
AC – Sampa,
01/11/2012.
Marcadores:
liberdade de expressão,
Politicamente correto
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
estilhaços
o sol nos cacos da garrafa estilhaçada
gemas falsas esmeraldas
AC - Sampa, 18/10/12
Foto de Maria Estêvão Pereira
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quinta-feira, 11 de outubro de 2012
intransferível
não leve a mal
o inferno
é muito pessoal
fuga impossível
sair do próprio inferno
intransferível
(AC 2012)
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Mastro da Paixão
Nosso amor equilibrista
No arame da razão.
Nosso sonho trapezista
No trapézio da ilusão.
Nosso leito, nosso circo,
Picadeiro da emoção.
Nosso amor contorcionista,
Nós nos braços da paixão.
Nosso amor feito palhaço
Deita e rola pelo chão.
Acrobata neste abraço
Pede mais uma função.
Bailarina ou trapezista,
Domador do coração.
Nossa mágica bonita,
Lona e mastro da paixão.
Desfrutar do nosso amor numa gargalhada
Desse jeito meio exibicionista
Nós no picadeiro, nós na arquibancada
Sendo ao mesmo tempo público e artista
Nesse nosso número correndo o risco
Lona e mastro, nossa tenda armada
Sendo ao mesmo tempo público e artista
Nus no picadeiro, nus na arquibancada
Letra: AC / Música: Luiz Antônio Karam
Feita para um show que não saiu, esta música nunca foi apresentada... Coisas do século passado...
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