segunda-feira, 27 de abril de 2009

a devassa

devassa minha alma devassa
a bisbilhotice repentina
das meninas dos olhos da menina

Alberto Centurião
Sampa 26/04/2009

sábado, 14 de fevereiro de 2009

uma coisa qualquer

uma unha comprida
uma cutícula partida
uma meia furada
um cabo fora da tomada
um plenilúnio em plena luz do dia
não importa o que seja tudo pode ser poesia
porque a senha secreta
está no olho do poeta
que extrai do objeto
o seu apelo secreto
produzindo a imagem
que traduz em linguagem
o verbo impronunciável
que diz a verdade inconfessável
com tamanha leveza
que quase não se percebe o horror debaixo da beleza

Alberto Centurião
Sampa 14/02/2009

sábado, 31 de janeiro de 2009

Velhice

de repente
quando menos se espera
chega o dia longamente esperado
mais temido que desejado
em que te tornas o mais velho do teu clã
de tua estirpe o mais remoto ascendente
pelo simples motivo que todos os outros
que te antecederam na vida
também antes de ti se retiraram
pelo conta gotas da morte
e tens que te habituar a um novo papel
doravante serás o ancião
a presidir o conselho dos anciãos
o avô o pai o tio o velho
o conselheiro o caduco
o mais mimado imprestável
aquele que todos querem ou repelem
até quando por vacância
cumpra-se a linhagem sucessória
porque enfim te tornaste
a mais recente entre as ausências
penduradas na memória

Alberto Centurião
Sampa 22/01/2009

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Mais uma mensagem

Que posso dizer agora
a esta hora tardia
deste específico dia
se nesse gesto previsto
- protocolar cortesia -
qualquer coisa que eu dissesse
você presumivelmente
de antemão saberia?

Que posso dizer então
acima do ramerrão
que de maneira festiva
alegre o seu coração?

Tenho pudor da mesmice
e tédio do previsível.
Não pense que é sovinice
do afeto presumível
nem diga que eu esqueci
dos amigos neste dia.
Saiba antes que daqui
uma prece te alumia.

Meus desejos diferentes
trazem votos esquecidos:
- Pensamentos criativos
e o amor dos teus parentes.


Alberto Centurião
Sampa, Natal/2008

terça-feira, 11 de novembro de 2008

fim

porque tudo se acaba
é que tudo começa
porque todo progresso
é o eterno regresso


Alberto Centurião
Sampa 10/11/2008

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

entropia

dentro de um shopping Center
todas as cidades são iguais
todos os desejos são iguais
todas as juras são iguais
é a humanidade reduzida
ao máximo divisor comum
em doze vezes no cartão
sem juros

Alberto Centurião
Sampa 30/10/2008

minha vida impressa

uma brochura
de lombada bem dura
poesia pura
do berço à sepultura

folheio sem pressa
minha vida impressa
passado não cessa
futuro é promessa

existe o instante
fugaz incessante
presente pulsante
cabeça distante

em cada amargura
prazer ou ventura
na idade madura
meu ser se depura

Alberto Centurião
Sampa 30/10/2008

terça-feira, 26 de agosto de 2008

viagem no pôr do sol

para a tripulação do vôo 1625

eu me apego às últimas luzes do dia
como um doente na uti
se agarra ao último sopro de vida

morrer deve ser igual
a seguir o sol
do outro lado do mundo
.
mas meu avião
viaja de norte a sul
e não me resta escolha

senão mergulhar na noite
para viver mais um dia

Alberto Centurião
10/08/2008 – 18h20
a bordo entre Cuiabá e Campo Grande
rumo a São Paulo

vôo noturno

- o mapa do Brasil
é pontilhado de alfinetes
ou seriam estrelas
caídas do céu?

Alberto Centurião
10/08/2008 – noite
a bordo entre Cuiabá e Campo Grande
rumo a São Paulo

domingo, 27 de julho de 2008

motivos

tudo tem um motivo
tudo tem um porquê
o dilema de estar vivo
é saber quem é você

Alberto Centurião
Sampa, 20/07/2008