sábado, 23 de julho de 2011

antissonata

antissonata
vazio vaza
a mente capta

AC - Sampa, 23/07/11

quarta-feira, 6 de julho de 2011

cabum!

a noite cai
o dia morre
seu um ai

(AC 05/07/2011)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

pororoquinha metafórica

o rio corre ao contrário
o mar entra pela terra
levantando uma barragem
ao rio que fraco reflui
mas embora seja o mar
forte e às vezes bravio
por fim quem vence é o rio
porque mais do que franzino
seu curso mole é constante
já o mar de maré cheia
torna-se em pouco vazante

embora fraco e molenga
não é somente por conta
da sua perseverança
que o rio vence a pendenga

é porque a água do rio
se mistura com a do mar
até que o mar já não sabe
se a água é dele ou do rio
porque água é sempre água
quer seja doce ou salgada
seja de mar ou de rio

e não vendo a diferença
que diferença não há
o mar recolhe e recua
porque tudo sendo água
se acaba a desavença

ah se os homens aprendessem
que assim feito mar e rio
nós temos corpos de água
e se o rio vence o confronto
quem sai ganhando é o mar
que se alimenta da água
que o rio lhe vai despejar

Alberto Centurião
Pauba, 25/06/2011

sábado, 25 de junho de 2011

haikai e trova na praia

moça de biquini
a onda lambe-lhe os pés
galante tsumini

coração com anagrama
menina escreve na areia
a onda vem e esparrama
o coração devaneia

AC − Pauba, 24/06/2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

serpenteando

serpente ou não ser
ser ou não serpente
estou careca de saber
pensa a serpente
a serpentear

(Sampa, 13/06/2011).

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O artista e seu retrato quando velho

tem vezes que a gente faz coisas que não se faz
e sabe que não devia
mas faz e depois se arrepende
e sente vergonha
medo repulsa dó desalento
mas já fez e está feito
e bate uma baita tristeza
e o coração se oprime
e um peso aperta o peito de um jeito
que o osso do peito sente a pressão
mas já não tem jeito
o que está feito está feito
então o jeito é juntar os cacos
com soldar o que sobrou
tratar de refazer o próprio ego
ferido despedaçado
o dia desperdiçado
e já que não tem conserto
o que foi feito foi feito
consertar a auto-imagem
juntando toda a coragem
para encarar no espelho do fato
o próprio auto-retrato
e decidir fazer com novos atos
novos fatos
para um novo auto-retrato
mais ao gosto do artista
que faz do gesto pincel
e na tela da vida usa o matiz da palavra
para o estudo frustrado recobrir com novas telas
mais do seu jeito mais belas
que o artista sem retoques não seria irretocável
e à custa de repintar-se o artista se reconstrói
recriando os próprios atos
até recriado inteiro tornar-se iguaria fina
o artista quando velho é a própria obra-prima

Alberto Centurião
Joinville, 28/11/2007

terça-feira, 7 de junho de 2011

reencarnator

um corpo para muitas almas
reencarnação às avessas
o ator merece palmas

AC – Sampa 07/06/2011

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Seis horas

Um sino tange
um som pungente
de velhos poetas
na volta do tempo

Há sombras de nuvens que passam
devagar como se parassem
e um antiquado sol amarelado
na beira da estrada apascentando ovelhas

Uma poeirinha
subindo de mansinho
qual tímida nuvenzinha
que vai sumindo devagarinho
até ficar paradinha e fininha
penduradinha no ar bem quietinha

Então
mais parado ainda
recomeça o lento movimento lento
e a gema de ovo do sol
vai cair na frigideira do ocaso
na floresta fogueira imensa
e o horizonte em volta dele-gema
fica coalhado de nuvens-claras
e quando bem frito fica pronta
a bela noite-estrelada

Alberto Centurião
Sampa, lá pelos anos 70

domingo, 22 de maio de 2011

fim

no fundo no fundo
não estou a fim
do fim do mundo

AC – 22/05/2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ponto Morto

Os tempos se exauriram
Os caminhos se fecharam
Os filões são esgotados
Aquelas veredas abertas há cem ou duzentos anos
nos trouxeram aonde estamos
mas não nos levam além
Parados em pleno desvio
Aqui agora livres
Desarraigados desapegados desprogramados
Desabitados das velhas idéias
Desabituados de antigos procedimentos
Desaculturados
Sem já mais prestar culto aos ancestrais
Cruzamos a linha de chegada pisando fundo no ponto de partida
Onde tudo se acaba é que tudo se inicia
É bom que me lembre antes que me esqueça
Afinal todo fim é um novo começo
Quando engato o ponto morto aí mesmo é que ressuscito.

Alberto Centurião
Sampa, 23/11/2007