quinta-feira, 28 de junho de 2012

Antes de Criar

Se no princípio havia o Verbo
E o Verbo estava em Deus
E o Verbo era Deus
Então é o verbo amar.

Provado está que Deus amou
Antes de criar.
Provado está que Deus amou
Antes de criar.

Portanto, meu irmão poeta,
Meu irmão cantor
Se a divina flor
Tu queres cultivar

Aprende a lição do amor
Antes de criar.
Aprende a lição do amor
Antes de criar.
http://soundcloud.com/alberto-centuri-o/antes-de-criar
Poema de Alberto Centurião - Recife, Boa Viagem, abril/99
Música e Voz de Ana Lívia Sartori e Fabrício Cantoni - Franca/SP

sábado, 23 de junho de 2012

vias

duas pernas
tantos caminhos
uma cabeça
tantas sentenças
um porto
tantos destinos

AC – Sampa, 23/06/2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

gangorra


agito
cogito
desejo
concebo

balanço
suspenso
peso
penso

sujeito
suspeito
jugo
julgo

reflito
suscito
fato
ou mito

AC – Sampa, 22/06/2012

quinta-feira, 7 de junho de 2012

evolução da espécie


o primeiro déspota era destro
o segundo sinistro
o terceiro ambidestro

AC – Sampa, 07/06/2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

codecodificação

a musa sibila
o poeta soletra
o poema só letra
o olho penetra

a mente decifra
a boca silaba
a vida celebra
o tempo calibra

AC - Sampa, 01/06/2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Quanto vale uma canção?

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

A cigarra vive a cantar
E a formiga a labutar.
Mas cantar exige esforço
E há beleza em trabalhar.

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis) 

Dona formiga, trabalhadeira,
Ganha dinheiro pra se manter.
Dona cigarra, que é cantadeira,
Quer do seu canto sobreviver.

Dona cigarra, com seu cantar,
Cria beleza pra sua amiga.
Sempre alegrando quem escutar,
Trabalha tanto quanto a formiga.

Mas os amigos dessa cigarra
Dizem que o canto não dá camisa.
Não é trabalho, é pura farra,
Não vale nada tanta beleza.

Dona cigarra cantando a esmo,
Tanto trabalho tem pra cantar!
Será que ela precisa mesmo
Virar formiga pra trabalhar?

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

Quanto vale uma canção?
É a pergunta da cigarra,
Pra alegrar seu coração
E limpar a sua barra?

Minha irmã cigarra amiga,
A criar sua beleza,
Ouve o que diz a formiga:
- Beleza não põe a mesa.

Mas havia uma formiga
Que guardava uma canção
Muito linda, muito meiga,
Dentro do seu coração.

Que formiga tão bizarra,
De repente é sensação:
Tinha alma de cigarra
E no ventre uma canção.

Como pode uma operária
Descuidar da produção
E deixar de ser gregária,
Pra viver só de emoção?

Um artista proletário
Pra fazer sua canção
Tem que ser um operário,
Trabalhar na produção?

Muito mais produziria
Se vivesse da canção.
Se fizesse, com alegria,
Sua arte profissão.

Quanto vale uma canção
De um poeta popular
Que com fé, numa oração,
Fez da arte o seu altar?

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

Seja cigarra, seja formiga,
A mão trabalha e a mente indaga.
Pede comida toda barriga,
Todo trabalho merece paga.

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

A cigarra e a formiga
São iguais à sã doutrina.
Praticando a caridade,
Uma dá e a outra ensina.

Se a cigarra talentosa
Morre de inanição,
A formiga operosa
Fica sem sua canção.

Se a cigarra, ao Deus dará,
Sobrevive da canção,
A formiga poderá
Iluminar seu coração.

Será certo uma cigarra,
Que só canta e não produz,
Ser formiga da guitarra
E vender a sua luz?

Se deixou a sua fé
Embalar sua canção,
Já não pode o seu José
Ter na arte profissão?

Um artista sem renome,
A cantar em liberdade,
A cigarra também come.
Também tem necessidade...

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

Seja cigarra, seja formiga,
A mão trabalha e a mente indaga.
Pede comida toda barriga,
Todo trabalho merece paga.

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

A cigarra vive a cantar
E a formiga a labutar.
Mas cantar exige esforço
E há beleza em trabalhar.

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

AC - São Paulo, junho/2000.
Canção gravada pelo Grupo Arte & Vida 
com música de Ronaldo Sabino, Franca - SP/2000.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poesia para ouvir Vivaldi

.
FLORAL

floresta em floração
pé ante pétala
pisa o coração

nas alcatifas de Casimiro de Abreu

..
CANICULAR

farfalhos
cigarras
gargalhos
cócegas
na sola dos pés
as folhas de grama de Walt Whitman

...
OUTONAL

crac passos
crac pisam
crac folhas

desceram das árvores
as cigarras de Matsuo Bashô

cascas no chão
findo o verão
outra canção

....
FRIGIDEZ

gravetos
esperam
espetam

a nudez angular das árvores
em nada se parece
com a nudez macia e cálida
do leito de minha amada

terra despudorada exibe
as pedras de João Cabral
no leito seco da estrada
pedindo para ser pisada

AC – Sampa, 25/04/2012

sábado, 7 de abril de 2012

rever ter
só vi vendo
se me ando

AC - SP, 07/04/2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Hécuba - Monólogo da Criança Morta

(Da tragédia "As Troianas", de Eurípedes)

HÉCUBA
- Ah, meu querido. Se ao menos tivesses morrido pela pátria, depois de desfrutar a mocidade, o casamento, a realeza, terias sido mais feliz.
Pobre cabeça! Como está ferida e tanto! Arrancaram quase todos os cabelos que tua mãe tanto gostava de pentear e beijar. Seu rosto lindo, esfacelado, ensanguentado.
Não posso mais! Meu olhar não suporta este espetáculo!
Meu pobre infeliz, mentias sem saber, quando me prometias: “Vovó, quando morreres cortarei cachos dos meus cabelos e jogarei sobre teu túmulo, na hora da despedida”.
Mas não choraste a minha morte. Sou eu, tua avó, sem pátria e sem filhos, que irei sepultar teu delicado corpo tão maltratado!
E que palavras um poeta escreveria na lápide do teu pequeno túmulo? "Aqui jaz uma criança frágil e indefesa, que, por ter aterrorizado os bravos guerreiros gregos, foi por eles trucidada". Que vergonha para a Grécia, tal epitáfio.
Ah, gregos que tanto exaltais as vossas façanhas na guerra! A força da razão vos há de impedir qualquer sentimento de orgulho, depois deste homicídio brutal. Que ameaça poderia esta criança trazer para a Grécia? A possibilidade de um dia poder reerguer Tróia do meio destas ruínas? Miserável então o vosso mérito! Justo agora quando os troianos jazem por fim aniquilados, tivestes medo de uma frágil criança!
Ah, meu querido! Que triste o teu fim! De teu pai, herdas ao menos o escudo de bronze que será teu féretro. O mesmo que já protegeu o braço forte de Heitor, perdeu agora o seu valente guardião.
Venham, mulheres, e tragam, se ainda houver, alguns adornos para que eu prepare o morto.
A desgraça não nos deixou em condições de te render correta homenagem. Haverás de receber o que nos resta.
A criança que se alegra com um instante de felicidade e o julga infindável, é insensata. A sorte é instável como um homem embriagado que ora pende para um lado, ora para outro. Quem poderá dizer que sempre foi feliz?

(Fiz a adaptação desta cena para a peça "Crer para Ver", de e com Ione Prado, encenada em São Paulo, 1997.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Adeus Millôr Fernandes e Ademilde Fonseca

Ademilde foi no mesmo vapor
vai ter choro
na travessia do Millôr

(AC,28/03/2012)