terça-feira, 22 de setembro de 2020
Estação Primavera
Imersa num halo azul
revoluciona uma esfera
Aqui nas bandas do sul
tudo em compasso de espera
No ciclo da natureza
o trem da vida prospera
Vegeta gesta beleza
na Estação Primavera
Passageiros desolados
desbotados da viagem
assim que desembarcados
tomados de primaveras
com os restos da estiagem
plantam flores e quimeras
AC - Sampa, 22/09/2020
sábado, 5 de setembro de 2020
Reflexão para um ano que agoniza em pleno corredor do calendário
Tem doença que mata
e doença que maltrata.
Tem a que maltrata e não mata
e a fatal, definitiva, que mata sem maltratar.
Tem ainda as mais cruéis,
que matam devagarinho,
por gosto de maltratar.
Doença de qualquer tipo
a gente não quer passar.
Mas, sendo que não tem jeito,
se desse para escolher,
cada um pensa dum jeito,
prefere a morte ou sofrer.
Uns querem a morte súbita,
liquidar logo a fatura.
Outros pedem a doença crônica,
que arrasta sua asa negra
no diário desconforto
que transforma o organismo
num estorvo requintado,
dolorido e repisado.
Mas, seja qual for, a escolha
pode ser contrariada.
Quem tem saúde já sabe
que essa alta é provisória
e que um dia chega a hora
de baixar enfermaria.
Quando adoece, não sabe
se a morbidez é benigna
– que só maltrata e não mata –
ou contém malignidade.
Se for benigna, ainda resta
saber se crônica ou aguda:
Se tortura lentamente
ou dói tudo de uma vez.
Diagnóstico acertado
também não é garantia,
pois tem muita cura em falta
na medicina hoje em dia.
E o marketing da saúde,
quando faz o lançamento
de uma nova terapia,
logo inventa nova síndrome,
que conduz ao consultório
nova leva de pacientes
que se tornam portadores
de um novo mal incurável,
mas que pode ser tratado,
permitindo ao pobre diabo
viver quase normalmente,
se tomar alguns cuidados
e a sua ração diária
dos remédios receitados,
de uso restrito e continuado.
A doença leva dor
ao doente e seu entorno,
que sofre, por empatia,
de perda súbita ou dó.
Tem doença de varejo,
que pega uma só pessoa.
E tem outras, de atacado,
que logo vão produzindo
estatísticas sinistras
que adornam o noticiário.
Tem distúrbio bem discreto,
que causa uma dor secreta.
E tem os escandalosos,
que, mais que ser dolorosos,
maltratam a criatura
exibindo-lhe a figura
em situação humilhante,
enquanto não chega o dia
de levá-la à sepultura.
Ter doenças ninguém quer,
mas ninguém delas escapa,
seja homem ou mulher.
E o que mata um vivente,
para outro não é nada.
Uns curam-se do incurável,
outros partem desta vida
por um simples resfriado.
Os tratamentos variam
conforme a fé do coitado.
Uns creem na medicina,
outros dela desconfiam.
Uns querem curar o corpo
e outros, desencantados,
procuram, resignados,
tratamento paliativo
ou terapia que ajude
seu espírito cansado
a resistir bravamente
ante a tortura cruel,
sem esperança de cura.
Seja qual for a doença,
desconforto ou agonia,
isso é coisa de nascença,
que se aprende desde cedo
a suportar todo dia.
A cura definitiva,
a remissão radical,
por mais estranho que seja,
é algo que ninguém quer.
Todos temem essa hora,
o doente em agonia
implora por mais um dia
vivendo na enfermaria.
Preferem a recidiva
que a alta definitiva:
ter seu óbito atestado
e registrado em cartório.
Mas raciocine comigo,
colega de enfermaria:
Se o corpo vive doente,
entra e sai do hospital,
então livrar-se do corpo
será saúde, afinal?
Será, viver neste mundo,
necessário tratamento
para males mais profundos?
Estaremos, talvez,
(− Quem diria!)
numa grande enfermaria,
onde uns tomam remédio,
outros fazem cirurgia,
alguns inspiram cuidados
e outros, mais agravados,
vivem presos a aparelhos,
monitorados de perto
pela equipe do plantão?
Não sei, nem devo saber
se isto faz algum sentido.
Cada um sabe de si
e do texto sabe o leitor.
Mas veja se não ocorre
muita gente ser curada
de morbidezas da alma
quando sente a morte perto,
rondando-lhe a cabeceira?
Ou quando a dor lancinante
trespassa o seu organismo?
Não lhe parece também
que algumas chagas da alma
cicatrizam quando o corpo
em chagas se desmilingue?
Ou que algumas pessoas
melhoram sensivelmente
enquanto o corpo adoece?
Mas nem sempre isso acontece,
eu concordo com o leitor.
Tem quem sofre e não aprende
e o que aprende sem sofrer.
Sucede que se esta vida
for mesmo um grande hospital,
terapias alternativas
devem estar disponíveis.
Que se trate como quer,
do jeito que lhe aprouver.
Concordo que algumas vezes
a gente não tem escolha,
mas será que nesses casos
a escolha foi sendo feita
aos poucos, devagarinho,
assim definindo o caminho
que conduz à enfermaria?
Peço, releve o leitor
assunto tão enfermiço,
inda mais numa hora destas,
em cima do fim do ano,
quando todos fazem planos
e formulam seus desejos
de saúde e coisas boas.
É que hoje estou sorumbático,
talvez um tanto apreensivo,
pensando que estar no mundo
deve ter algum motivo.
Mas saibam que neste corpo,
mesmo que meio imperfeito,
meu coração bate forte
em código Morse afetivo,
mensagens esperançosas
de quem busca nas palavras
a cura da minha alma,
palmo a palmo com a sua,
nesta drágea de poesia.
e doença que maltrata.
Tem a que maltrata e não mata
e a fatal, definitiva, que mata sem maltratar.
Tem ainda as mais cruéis,
que matam devagarinho,
por gosto de maltratar.
Doença de qualquer tipo
a gente não quer passar.
Mas, sendo que não tem jeito,
se desse para escolher,
cada um pensa dum jeito,
prefere a morte ou sofrer.
Uns querem a morte súbita,
liquidar logo a fatura.
Outros pedem a doença crônica,
que arrasta sua asa negra
no diário desconforto
que transforma o organismo
num estorvo requintado,
dolorido e repisado.
Mas, seja qual for, a escolha
pode ser contrariada.
Quem tem saúde já sabe
que essa alta é provisória
e que um dia chega a hora
de baixar enfermaria.
Quando adoece, não sabe
se a morbidez é benigna
– que só maltrata e não mata –
ou contém malignidade.
Se for benigna, ainda resta
saber se crônica ou aguda:
Se tortura lentamente
ou dói tudo de uma vez.
Diagnóstico acertado
também não é garantia,
pois tem muita cura em falta
na medicina hoje em dia.
E o marketing da saúde,
quando faz o lançamento
de uma nova terapia,
logo inventa nova síndrome,
que conduz ao consultório
nova leva de pacientes
que se tornam portadores
de um novo mal incurável,
mas que pode ser tratado,
permitindo ao pobre diabo
viver quase normalmente,
se tomar alguns cuidados
e a sua ração diária
dos remédios receitados,
de uso restrito e continuado.
A doença leva dor
ao doente e seu entorno,
que sofre, por empatia,
de perda súbita ou dó.
Tem doença de varejo,
que pega uma só pessoa.
E tem outras, de atacado,
que logo vão produzindo
estatísticas sinistras
que adornam o noticiário.
Tem distúrbio bem discreto,
que causa uma dor secreta.
E tem os escandalosos,
que, mais que ser dolorosos,
maltratam a criatura
exibindo-lhe a figura
em situação humilhante,
enquanto não chega o dia
de levá-la à sepultura.
Ter doenças ninguém quer,
mas ninguém delas escapa,
seja homem ou mulher.
E o que mata um vivente,
para outro não é nada.
Uns curam-se do incurável,
outros partem desta vida
por um simples resfriado.
Os tratamentos variam
conforme a fé do coitado.
Uns creem na medicina,
outros dela desconfiam.
Uns querem curar o corpo
e outros, desencantados,
procuram, resignados,
tratamento paliativo
ou terapia que ajude
seu espírito cansado
a resistir bravamente
ante a tortura cruel,
sem esperança de cura.
Seja qual for a doença,
desconforto ou agonia,
isso é coisa de nascença,
que se aprende desde cedo
a suportar todo dia.
A cura definitiva,
a remissão radical,
por mais estranho que seja,
é algo que ninguém quer.
Todos temem essa hora,
o doente em agonia
implora por mais um dia
vivendo na enfermaria.
Preferem a recidiva
que a alta definitiva:
ter seu óbito atestado
e registrado em cartório.
Mas raciocine comigo,
colega de enfermaria:
Se o corpo vive doente,
entra e sai do hospital,
então livrar-se do corpo
será saúde, afinal?
Será, viver neste mundo,
necessário tratamento
para males mais profundos?
Estaremos, talvez,
(− Quem diria!)
numa grande enfermaria,
onde uns tomam remédio,
outros fazem cirurgia,
alguns inspiram cuidados
e outros, mais agravados,
vivem presos a aparelhos,
monitorados de perto
pela equipe do plantão?
Não sei, nem devo saber
se isto faz algum sentido.
Cada um sabe de si
e do texto sabe o leitor.
Mas veja se não ocorre
muita gente ser curada
de morbidezas da alma
quando sente a morte perto,
rondando-lhe a cabeceira?
Ou quando a dor lancinante
trespassa o seu organismo?
Não lhe parece também
que algumas chagas da alma
cicatrizam quando o corpo
em chagas se desmilingue?
Ou que algumas pessoas
melhoram sensivelmente
enquanto o corpo adoece?
Mas nem sempre isso acontece,
eu concordo com o leitor.
Tem quem sofre e não aprende
e o que aprende sem sofrer.
Sucede que se esta vida
for mesmo um grande hospital,
terapias alternativas
devem estar disponíveis.
Que se trate como quer,
do jeito que lhe aprouver.
Concordo que algumas vezes
a gente não tem escolha,
mas será que nesses casos
a escolha foi sendo feita
aos poucos, devagarinho,
assim definindo o caminho
que conduz à enfermaria?
Peço, releve o leitor
assunto tão enfermiço,
inda mais numa hora destas,
em cima do fim do ano,
quando todos fazem planos
e formulam seus desejos
de saúde e coisas boas.
É que hoje estou sorumbático,
talvez um tanto apreensivo,
pensando que estar no mundo
deve ter algum motivo.
Mas saibam que neste corpo,
mesmo que meio imperfeito,
meu coração bate forte
em código Morse afetivo,
mensagens esperançosas
de quem busca nas palavras
a cura da minha alma,
palmo a palmo com a sua,
nesta drágea de poesia.
AC- Sampa, 31/12/12.
sábado, 27 de junho de 2020
quarta-feira, 20 de maio de 2020
domingo, 17 de maio de 2020
segunda-feira, 11 de maio de 2020
sábado, 25 de maio de 2019
sábado, 18 de maio de 2019
Amplo Espectro - O grande livro do poeta Roberto Prado
Transcrevo aqui o prefácio que tive a honra de escrever.
Amplo Espectro – Prefácio
Alberto Centurião
Seres
multifacetados que somos, em múltiplas personas nos manifestamos; porém existe
uma delas que mais nos mostra e revela. Pois a persona poeta é aquela que mais
se afeiçoa à protoface pessoa, porque de todos os feitos manifestos do sujeito
é a poesia seu jeito de mostrar-se o mais inteiro e perfeito, para seu próprio
deleite. São muitos Robertos Prado, mas a persona poeta do sujeito indigitado é
aquela a que me refiro aqui nestas maltraçadas.
Não falo, pois, da pessoa, mas da persona poeta. Por certo, a que mais chega
perto do nosso amigo Roberto, mais conhecido por Beco.
Pelo
conjunto da obra, Roberto Prado está entre os grandes de sua geração e se
destaca em meio àquela chusma de bravos que, há meio século, aquartelados em
Curitiba, produzem essa beleza grátis, perfeita, natural a que chamamos poesia,
que vira música, que vira teatro, que vira slogan, que vira e mexe invade a
vida e causa espécie, espanto e alumbramento.
Do
alto de seus quase dois metros de estatura física, está em posição privilegiada
para lançar mira sobre o mundo, a caçar mazelas e belezas, em busca de
inspiração e motivo para essa obra de amplo espectro, destilada neste tomo e
diluída em inúmeros solos e parcerias que se espraiam por outras praias – o
cinema, a música, o teatro, a crônica, o conto, a tradução e a novela literária
– além das tarefas do ganha-pão com o jornalismo, a propaganda e o marketing –
e de nutrir sua numerosa prole com pão e poesia, amor e filosofia.
Manuel
Bandeira declarava-se poeta menor, (1) por
suas características de temática e linguagem, em contraste com os ditos poetas maiores, grandiloquentemente
voltados a temas sociais e universais. Já Roberto Prado passeia com
desenvoltura por grandes e pequenos temas, sabendo ser épico e confessional,
filosófico e romântico, místico e satírico; ao tratar com igual desenvoltura
microcosmos e macrocosmo, paixões e revoluções, sua lira soe soar contrapontos
de infinitos e infinitésimos, tragédia e farsa, filosofia mística e miséria
social. Sendo de sua natureza ser poeta maior e menor, produziu a obra de amplo
espectro contida neste tomo, sob o título que de certa forma, inadvertidamente
ou não, o classifica e define.
Trinando
com igual desenvoltura sua voz pelas escalas maior e menor,
alevanta-se na rara condição de poeta de
amplo espectro. Humildemente carismático, sabe ser confessional sem
pieguice e descer aos detalhes sem perder perspectiva. Navega no mar das
emoções sem afogar-se num rio de lágrimas, discreto e marcante, coerente e
contraditório, múltiplo e único. Recatado sem timidez, respeitoso sem
subserviência, alegre sem euforia, grandioso sem grandiloquência, engajado sem
ser panfletário, delicado sem fragilidade e vigoroso sem pesar a mão, sua
poesia é sofisticada sem hermetismo, descomplicada e complexa, requintada sem
ostentação, simples com estilo e veemente sem imposição. Como ele não disse,
mas poderia ter dito: É pouco ou vai querer mais?
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
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