segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Reflexão para um ano que agoniza em pleno corredor do calendário


Tem doença que mata
e doença que maltrata.
Tem a que maltrata e não mata
e a fatal, definitiva, que mata sem maltratar.
Tem ainda as mais cruéis,
que matam devagarinho,
por gosto de maltratar.
Doença de qualquer tipo
a gente não quer passar.
Mas, sendo que não tem jeito,
se desse para escolher,
cada um pensa dum jeito,
prefere a morte ou sofrer.
Uns querem a morte súbita,
liquidar logo a fatura.
Outros pedem a doença crônica,
que arrasta sua asa negra
no diário desconforto
que transforma o organismo
num estorvo requintado,
dolorido e repisado.
Mas, seja qual for, a escolha
pode ser contrariada.
Quem tem saúde já sabe
que essa alta é provisória
e que um dia chega a hora
de baixar enfermaria.
Quando adoece, não sabe
se a morbidez é benigna
– que só maltrata e não mata –
 ou contém malignidade.
Se for benigna, ainda resta
saber se crônica ou aguda:
Se tortura lentamente
ou dói tudo de uma vez.
Diagnóstico acertado
também não é garantia,
pois tem muita cura em falta
na medicina hoje em dia.
E o marketing da saúde,
quando faz o lançamento
de uma nova terapia,
logo inventa nova síndrome,
que conduz ao consultório
nova leva de pacientes
que se tornam portadores
de um novo mal incurável,
mas que pode ser tratado,
permitindo ao pobre diabo
viver quase normalmente,
se tomar alguns cuidados
e a sua ração diária
dos remédios receitados,
de uso restrito e continuado.
A doença leva dor
ao doente e seu entorno,
que sofre, por empatia,
de perda súbita ou dó.
Tem doença de varejo,
que pega uma só pessoa.
E tem outras, de atacado,
que logo vão produzindo
estatísticas sinistras
que adornam o noticiário.
Tem distúrbio bem discreto,
que causa uma dor secreta.
E tem os escandalosos,
que, mais que ser dolorosos,
maltratam a criatura
exibindo-lhe a figura
em situação humilhante,
enquanto não chega o dia
de levá-la à sepultura.
Ter doenças ninguém quer,
mas ninguém delas escapa,
seja homem ou mulher.
E o que mata um vivente,
para outro não é nada.
Uns curam-se do incurável,
outros partem desta vida
por um simples resfriado.
Os tratamentos variam
conforme a fé do coitado.
Uns creem na medicina,
outros dela desconfiam.
Uns querem curar o corpo
e outros, desencantados,
procuram, resignados,
tratamento paliativo
ou terapia que ajude
seu espírito cansado
a resistir bravamente
ante a tortura cruel,
sem esperança de cura.
Seja qual for a doença,
desconforto ou agonia,
isso é coisa de nascença,
que se aprende desde cedo
a suportar todo dia.
A cura definitiva,
a remissão radical,
por mais estranho que seja,
é algo que ninguém quer.
Todos temem essa hora,
o doente em agonia
implora por mais um dia
vivendo na enfermaria.
Preferem a recidiva
que a alta definitiva:
ter seu óbito atestado
e registrado em cartório.
Mas raciocine comigo,
colega de enfermaria:
Se o corpo vive doente,
entra e sai do hospital,
então livrar-se do corpo
será saúde, afinal?
Será, viver neste mundo,
necessário tratamento
para males mais profundos?
Estaremos, talvez,
(− Quem diria!)
numa grande enfermaria,
onde uns tomam remédio,
outros fazem cirurgia,
alguns inspiram cuidados
e outros, mais agravados,
vivem presos a aparelhos,
monitorados de perto
pela equipe do plantão?
Não sei, nem devo saber
se isto faz algum sentido.
Cada um sabe de si
e do texto, sabe o leitor.
Mas veja se não ocorre
muita gente ser curada
de morbidezas da alma
quando sente a morte perto,
rondando-lhe a cabeceira?
Ou quando a dor lancinante
trespassa o seu organismo?
Não lhe parece também
que algumas chagas da alma
cicatrizam quando o corpo
em chagas se desmilingue?
Ou que algumas pessoas
melhoram sensivelmente
enquanto o corpo adoece?
Mas nem sempre isso acontece,
eu concordo com o leitor.
Tem quem sofre e não aprende
e o que aprende sem sofrer.
Sucede que se esta vida
for mesmo um grande hospital,
terapias alternativas
devem estar disponíveis.
Que se trate como quer,
do jeito que lhe aprouver.
Concordo que algumas vezes
a gente não tem escolha,
mas será que nesses casos
a escolha foi sendo feita
aos poucos, devagarinho,
assim definindo o caminho
que conduz à enfermaria?
Peço, releve o leitor
assunto tão enfermiço,
inda mais numa hora destas,
em cima do fim do ano,
quando todos fazem planos
e formulam seus desejos
de saúde e coisas boas.
É que hoje estou sorumbático,
talvez um tanto apreensivo,
pensando que estar no mundo
deve ter algum motivo.
Mas saibam que neste corpo,
mesmo que meio imperfeito,
meu coração bate forte
em código Morse afetivo,
mensagens esperançosas
de quem busca nas palavras
a cura da minha alma,
palmo a palmo com a sua,
nesta drágea de poesia.

AC- Sampa, 31/12/12.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Feliz 2013 a todos!


Minha vida está em festa
Meu destino sei de cor
Deixo atrás o que não presta
Parto desta pra melhor.

domingo, 23 de dezembro de 2012

ao poeta Antonio Thadeu Wojciechowski na sua véspera de natal muito particular


prometi ao meu amigo
um poema de homenagem
no dia que ele morrer

mas toda promessa incerta
só se confirma de fato
na hora que se cumprir

essa dívida pendente
por mais que não seja urgente
incomoda o devedor

que pode por mau acaso
ingressar no outro mundo
primeiro e mau pagador

por isso meu caro amigo
no dia do natalício
resolvi paparicar

assim durmo sossegado
e posso morrer dormindo
que já cumpri meu dever

desobrigando a consciência
hoje bato continência
ao poeta popular

trovador curitibano
polaco da barreirinha
bardo vasto e secular

ao cidadão Wojciechowski
com versos metrificados
tributos quero pagar

AC - Sampa, 23/12/12

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

duvidádiva


promessa é dúvida
e a vida é dádiva
novas promessas
e a dádiva da dúvida

AC - Sampa, 19/12/12


a alma da lama
canta nas flores
e nos poemas

AC - Sampa, 19/12/12

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

chama


brincar com as palavras
jogar com as ideias
embaraçar os laços
embaralhar sentimentos
grafar o inexprimível
é o feito impossível
que se chama poema

AC - SP, 18/12/12

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

flagrante


o fotógrafo persegue a foto
como a leoa sua presa
que descuidada se exibe

o fotógrafo é o meliante
capaz de furtar uma imagem
capturada em flagrante

AC - 14/12/12 - para uma foto de Silvio Crisóstomo

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

o dono do poema


o poeta não é dono do poema
o editor não é dono do poema
o pirata não é dono do poema
o livreiro não é dono do poema
o leitor não é dono do poema
o intérprete não é dono do poema
a bibliotecária não é dona do poema
nem o poema é dono do poema
porque o poema não é o poema
o efeito do poema é que é o poema
quem sente o efeito nesse instante
é o dono do poema

AC - Sampa, 13/12/12

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

aprendizado


o beabá do me amar
tem lições de bem querer
de perder e perdoar

AC - 11/12/12

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Diáfanos Concretos


Partiram na mesma barca
Décio Pignatari
poeta concreto
e Oscar Niemeyer
arquiteto do concreto.

Concretamente,
o que estarão arquitetando?

A poesia das formas e a concretude do verso?
O verso do concreto e as formas da poesia?
O verso do verso concreto?

Casas de admirar?
Poesia de morar, de mirar?

Coisas lindas
de morrer.

(AC - 06/12/2012)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

surpreendentemente


minha mente intermitente
ora lúcida ora dormente
mais do que sabe pressente

AC - Sampa, 03/12/12

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Ação Sem Agitação


Não seja burro, Inteligente,
seus neurônios o neurotizarão.
Não exiba coroas à cobiça,
sua cabeça rolará.

Quem governa obedecendo,
educa sem paixão,
mais sente do que sabe
e seus filhos têm coração.

Aquele que provê a mesa
e dispensa a certeza
terá na despensa
os lírios do campo.

Uma nação Tao
deixa vendido o vendilhão
e não dá ao medíocre
miséria por diversão.

Governa o sábio por não mandar.
Sem agitar ele faz tudo se ordenar:
Tao é a paz.
Livre-adaptação/tradução de
Alberto Centurião de Carvalho, Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Dose


Necessária se faz a beleza
nesta vida pacata e mofina,
pois sem ela só resta a certeza
de que um dia esse tédio termina.

É preciso escrever poesia.
De uma dose diária careço,
pois é isso que tira meu dia
da rotina sem fim nem começo.

A poesia é a pílula diária
que desopila este espírito cansado
e me dá forças para, mesmo em agonia,

ter a virtude poderosa, extraordinária,
de achar na arte deste artista fracassado
libertação do ramerrão do dia a dia.

AC – 19/11/12

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

homo hominis lupus


somos sardinhas do mesmo cardume
somos gatos da mesma ninhada
então por que diabos piranhas humanas
fazemos do mundo um saco de gatos
se somos caldo da mesma vasilha
se somos cachorros da mesma matilha

AC - Sampa, 06/11/12

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Escassez e Abundância


Tem pouco índio pra muito cacique
Tem muito czar pra pouco cossaco
Tem muito guru pra pouca guria
Tem pouca gueixa pra muito xógum
Tem muito pastor pra pouco rebanho
Tem muito mapa pra pouco caminho
Tem muito suor pra pouco prazer
Tem muito dono pra pouca verdade
Tem muita lei pra pouca justiça
Tem pouco pão pra muita barriga
Tem muito guarda pra pouco guardado
Tem muito vício pra pouca virtude
Tem pouco craque pra muito cartola
Tem pouca comida pra muita panela
Tem pouco angu pra muito caroço
Tem pouco novo pra muito novilho
Tem pouco amor pra muita suruba
Tem pouco amigo pra muito cachorro
Tem pouca água pra muita marola
Tem pouco acerto pra muita lambança
Tem pouco muito pra muito pouco
Tem muita palha pra pouca fornalha
Tem pouca cauda pra muito caudilho
Tem muito morto pra pouca mortalha
Tem pouca merda pra tanta lombriga
Tem pouco respeito pra muito canalha

AC - Sampa 03/02/2008

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Delírio politicamente correto


Um dia vamos passar a limpo a nossa história.
Deixar para trás tudo que não foi bom, limpo, belo, moderno, perfeito.
Um dia o mundo ainda vai ser do jeito que a gente acha que deve.
Nesse dia todo mundo vai andar na linha
porque nesse mundo perfeito
quem não andar direito
não vai ter esse direito.
Um dia a gente ainda vai botar um freio neste mundo.
Todos no mesmo compasso
Marchando no mesmo passo
Pensando do mesmo jeito
Conforme a mesma cartilha
Rezando pelo mesmo catecismo
Sempre a mesma ladainha.
A desigualdade será revogada por decreto
e segundo a letra nova da lei
todo preto, pardo, bugre ou cafuzo
todo molambo de rua
todo farrapo de gente
num rompante, por decreto
será  branco, belo, rico e feliz.
E quem pensar o contrário
criminoso refratário
não terá mais o direito
de expressar seu preconceito.
Um dia a gente vai reescrever todos os livros
recontar todos os contos
e nos clássicos reeditados
os desvios de raça, credo, ideias e costumes corrompidos
serão amputados.
Porque num mundo perfeito
os gênios de outros tempos imperfeitos
devem morrer outra vez
renascendo mais corretos
em edições revisadas
na norma culta tramadas
versando somente o belo, o bom,
o límpido e edificante substrato de um mundo idealizado
de uma vida perfeita
onde seres imperfeitos
tenham conduta correta.
Um dia faremos um mundo
em que as palavras cruas
feias, sujas, chulas e malvadas
não morem no dicionário.
Um dia teremos artistas
todos perfeitos autistas
desfiando platitudes
num rosário de virtudes
desenhando a alma humana
sem vícios, pura virtude
numa sociedade ordeira
generosa, hospitaleira.
E ai de quem, descontente,
queira dizer o contrário!
Porque nos tempos de hoje
inda há muito salafrário
escrevendo despautérios
dedo em riste na ferida
dizendo que o fel da vida
é o alimento diário.
Talentos desperdiçados
pervertidos e perversos
insistem em ver no mundo
os malefícios
por baixo dos artifícios.
No nosso mundo perfeito
essas vozes dissonantes
não poderão existir.
Sejam todas afogadas,
pra sempre silenciadas
para que reine a bondade
por todas as latitudes
no terreal paraíso
de nossas sãs intenções.
Pode ser que o mundo seja
ainda escroto e sacana
ainda vil e cretino
velho berço de opressão
passagem de servidão
e o inimigo do homem
seja ainda o próprio homem.
Que seja, porém que os pobres
respeitem a autoridade
e salve-se a propriedade
que alguns lograram ganhar
Que seja imperfeito o mundo
pois é de fato imperfeito
mas a arte, o noticiário,
a escola e o dicionário
sejam todos concertados
de tal maneira orquestrados
que a nossa sociedade
tão imperfeita de fato
por muito fotorretoque
fique bem no seu retrato
a ponto de dar inveja
às gerações porvindouras.

Esse é o sonho secreto
o delírio autoritário
de quem quer forjar um mundo
politicamente correto.

AC – Sampa, 01/11/2012.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

estilhaços


o sol nos cacos da garrafa estilhaçada
gemas falsas esmeraldas

AC - Sampa, 18/10/12
Foto de Maria Estêvão Pereira

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

intransferível


não leve a mal
o inferno
é muito pessoal

fuga impossível
sair do próprio inferno
intransferível

(AC 2012)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Mastro da Paixão

Nosso amor equilibrista
No arame da razão.
Nosso sonho trapezista
No trapézio da ilusão.

Nosso leito, nosso circo,
Picadeiro da emoção.
Nosso amor contorcionista,
Nós nos braços da paixão.

Nosso amor feito palhaço
Deita e rola pelo chão.
Acrobata neste abraço
Pede mais uma função.

Bailarina ou trapezista,
Domador do coração.
Nossa mágica bonita,
Lona e mastro da paixão.

Desfrutar do nosso amor numa gargalhada
Desse jeito meio exibicionista 
Nós no picadeiro, nós na arquibancada
Sendo ao mesmo tempo público e artista

Nesse nosso número correndo o risco
Lona e mastro, nossa tenda armada
Sendo ao mesmo tempo público e artista
Nus no picadeiro, nus na arquibancada

Letra: AC / Música: Luiz Antônio Karam
Feita para um show que não saiu, esta música nunca foi apresentada... Coisas do século passado...

sábado, 22 de setembro de 2012

Quimera estúpida


Um vento lúgubre agita, viscoso,
o ar fétido e gelado
da metrópole agitada.

A mente fatigada
perambula em estado comatoso
entre corpos agitados.

Uma esperança se debate agonizante
mas se agarra, obstinada,
a uma estúpida quimera.

AC - São Paulo, 18/08/2001

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

quase


está faltando café nesse café com leite
está faltando poema nesse poema conceito
está faltando pão nesse pão com geleia
está faltando amor nesse amor perfeito

AC Sampa, 21/12/2011

sábado, 15 de setembro de 2012

História de outro tempo

Longe de tudo e de todos,
Numa casinha vazia,
Cheia de planos e sonhos
Vivia uma linda guria.

O que ela mais desejava
– Queria mas não conseguia –
Era mandar tudo às favas,
Mas dali não sairia.

Porque o lugar dessa casa
Assim ermo e desolado,
Era o palco adonde estava
Seu destino escrevinhado.

Aquela linda criança
Já nem tão criança assim
Um dia cortou a trança,
Sorriu e olhou pra mim.

Caipira tão acanhado
Não sabia o que fazer,
Tive um medo disgramado
Do seu olhar me prender.

Pois era assim que seria,
A partir desse momento:
O olhar dessa guria
Me prendeu o pensamento.

Eu fiquei dela cativo,
Sem graça e muito sem jeito.
Chorava sem ter motivo,
Tinha um aperto no peito.

Mas os dias se passando
Mostraram que do outro lado
A guria me olhando
Tinha um jeito encabulado.

Pra encurtar nossa história,
Depois de dois ou três anos
Eu pude cantar vitória:
Lá na vila nós casamos.

Tivemo um cacho de filho
E pouca coisa guardada,
Só uma roça de milho
Pra criar a filharada.

Mas foi uma vida boa,
Com nosso jardim de flor.
Ai, como o tempo se avoa
Nos braços do meu amor.

Mas nosso amor não se acaba.
Hoje aqui noutra morada,
A cabocla dedicada
Inda é minha namorada.

AC – Escrita inspirada, sem identificação.
Sampa, Agosto/2007.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

domingo, 12 de agosto de 2012

Ai, Meu Deus!



‘prazer leitor
sou personagem
foi o autor que me criou
e ao mundo em que vivo (a obra)

o autor pra mim é Deus
me criou à sua imagem
e a semelhança é inevitável
meu destino e o de meu mundo
são definidos por ele

eu não adoro o autor
mas acredito nele (e o temo)
conheço personagens que o adoram
outros afirmam que o autor não existe
mas se eu fui criado
e a obra alguém concebeu
então o autor meu Deus meu pai
me escreveu e me lê
no princípio nada existia (existia o autor)
o autor criou a obra
e dentro da obra eu nasci
o autor viu que era bom
e não nos jogou no cesto de papéis
a obra e eu crescemos
(e nos multiplicamos)

mas de onde tirou o autor
os elementos de que nos fez
senão de si mesmo
posto que o autor é tudo
que determina a obra

à custa de nos construir
com matérias de si mesmo
de algo do autor de sua vida
de sua própria natureza
ficamos impregnados
e somos parte do autor
ele é incompleto sem nós
talvez nem exista sem obra e personagem
e à força de pensar nisso me pergunto
se não fui eu quem inventou o autor
se o autor não é por fim
meu personagem
pois sem obra e personagem
o autor não é autor (ou não existe)

será você leitor personagem como eu
ou alguém fora da obra
(não pode haver nada além da obra
não pode haver outro mundo)
alguém igual ao autor
capaz de criar outras obras
se for
(não pode haver outro tempo
fora do tempo da obra)
talvez ao fim da obra eu sobreviva

mas se existem mais autores (e outras obras)
alguém criou vocês (e escreveu seus mundos)

bobagem
eu aqui falando
(com um leitor imaginário)

(AC - 1997)

sábado, 4 de agosto de 2012

Da série "Oh, Céus!"


materno cuidado
o sol estende um lençol
no céu da cidade

(AC – 04/08/2012 – Inspirado pela foto de Iara Teixeira)

terça-feira, 31 de julho de 2012

ciclos

nova florada
a seiva do velho tronco
reencarnada

(AC, 28/07/12)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Antes de Criar

Se no princípio havia o Verbo
E o Verbo estava em Deus
E o Verbo era Deus
Então é o verbo amar.

Provado está que Deus amou
Antes de criar.
Provado está que Deus amou
Antes de criar.

Portanto, meu irmão poeta,
Meu irmão cantor
Se a divina flor
Tu queres cultivar

Aprende a lição do amor
Antes de criar.
Aprende a lição do amor
Antes de criar.
http://soundcloud.com/alberto-centuri-o/antes-de-criar
Poema de Alberto Centurião - Recife, Boa Viagem, abril/99
Música e Voz de Ana Lívia Sartori e Fabrício Cantoni - Franca/SP

sábado, 23 de junho de 2012

vias

duas pernas
tantos caminhos
uma cabeça
tantas sentenças
um porto
tantos destinos

AC – Sampa, 23/06/2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

gangorra


agito
cogito
desejo
concebo

balanço
suspenso
peso
penso

sujeito
suspeito
jugo
julgo

reflito
suscito
fato
ou mito

AC – Sampa, 22/06/2012

quinta-feira, 7 de junho de 2012

evolução da espécie


o primeiro déspota era destro
o segundo sinistro
o terceiro ambidestro

AC – Sampa, 07/06/2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

codecodificação

a musa sibila
o poeta soletra
o poema só letra
o olho penetra

a mente decifra
a boca silaba
a vida celebra
o tempo calibra

AC - Sampa, 01/06/2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Quanto vale uma canção?

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

A cigarra vive a cantar
E a formiga a labutar.
Mas cantar exige esforço
E há beleza em trabalhar.

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis) 

Dona formiga, trabalhadeira,
Ganha dinheiro pra se manter.
Dona cigarra, que é cantadeira,
Quer do seu canto sobreviver.

Dona cigarra, com seu cantar,
Cria beleza pra sua amiga.
Sempre alegrando quem escutar,
Trabalha tanto quanto a formiga.

Mas os amigos dessa cigarra
Dizem que o canto não dá camisa.
Não é trabalho, é pura farra,
Não vale nada tanta beleza.

Dona cigarra cantando a esmo,
Tanto trabalho tem pra cantar!
Será que ela precisa mesmo
Virar formiga pra trabalhar?

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

Quanto vale uma canção?
É a pergunta da cigarra,
Pra alegrar seu coração
E limpar a sua barra?

Minha irmã cigarra amiga,
A criar sua beleza,
Ouve o que diz a formiga:
- Beleza não põe a mesa.

Mas havia uma formiga
Que guardava uma canção
Muito linda, muito meiga,
Dentro do seu coração.

Que formiga tão bizarra,
De repente é sensação:
Tinha alma de cigarra
E no ventre uma canção.

Como pode uma operária
Descuidar da produção
E deixar de ser gregária,
Pra viver só de emoção?

Um artista proletário
Pra fazer sua canção
Tem que ser um operário,
Trabalhar na produção?

Muito mais produziria
Se vivesse da canção.
Se fizesse, com alegria,
Sua arte profissão.

Quanto vale uma canção
De um poeta popular
Que com fé, numa oração,
Fez da arte o seu altar?

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

Seja cigarra, seja formiga,
A mão trabalha e a mente indaga.
Pede comida toda barriga,
Todo trabalho merece paga.

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

A cigarra e a formiga
São iguais à sã doutrina.
Praticando a caridade,
Uma dá e a outra ensina.

Se a cigarra talentosa
Morre de inanição,
A formiga operosa
Fica sem sua canção.

Se a cigarra, ao Deus dará,
Sobrevive da canção,
A formiga poderá
Iluminar seu coração.

Será certo uma cigarra,
Que só canta e não produz,
Ser formiga da guitarra
E vender a sua luz?

Se deixou a sua fé
Embalar sua canção,
Já não pode o seu José
Ter na arte profissão?

Um artista sem renome,
A cantar em liberdade,
A cigarra também come.
Também tem necessidade...

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

Seja cigarra, seja formiga,
A mão trabalha e a mente indaga.
Pede comida toda barriga,
Todo trabalho merece paga.

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

A cigarra vive a cantar
E a formiga a labutar.
Mas cantar exige esforço
E há beleza em trabalhar.

Dona formiga tem uma amiga,
Toca guitarra dona cigarra. (bis)

AC - São Paulo, junho/2000.
Canção gravada pelo Grupo Arte & Vida 
com música de Ronaldo Sabino, Franca - SP/2000.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poesia para ouvir Vivaldi

.
FLORAL

floresta em floração
pé ante pétala
pisa o coração

nas alcatifas de Casimiro de Abreu

..
CANICULAR

farfalhos
cigarras
gargalhos
cócegas
na sola dos pés
as folhas de grama de Walt Whitman

...
OUTONAL

crac passos
crac pisam
crac folhas

desceram das árvores
as cigarras de Matsuo Bashô

cascas no chão
findo o verão
outra canção

....
FRIGIDEZ

gravetos
esperam
espetam

a nudez angular das árvores
em nada se parece
com a nudez macia e cálida
do leito de minha amada

terra despudorada exibe
as pedras de João Cabral
no leito seco da estrada
pedindo para ser pisada

AC – Sampa, 25/04/2012